quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ESTUDO DO ANTIGO TESTAMENTO



                Noções introdutórias 

Para os cristãos a Bíblia não é um livro de ciências naturais ou de história erudita, mas o livro da comunidade de Jesus, ou seja:

  • da comunidade de Israel, da qual nasceu Jesus (o Primeiro ou Antigo Testamento)
  • da comunidade que surgiu a partir de Jesus (o Novo Testamento, chave para a leitura cristã da Bíblia inteira)
  • de nossa comunidade hoje, que pretende ser fiel ao que Jesus viveu.
 A leitura da Bíblia tem seu lugar certo na comunidade eclesial. Importa compreender a Bíblia no mesmo espírito em que foi escrita, a interpretação tenha como referência a comunidade de fé, que, na palavra e na vida, dá continuidade à obra de Jesus. A Bíblia deve ser lida na comunidade orante e celebrante, e que mantém viva a herança de Jesus na prática do amor fraterno e na experiência de Deus como Pai – mensagem que ressoa na celebração, para ser posta na vida.

                                    Síntese da história do povo de Deus


Os patriarcas. Abraão, Isaac e Jacó (Israel). O povo da Bíblia chama-se a sim mesmo “filhos (=descendentes) de Israel” (israelitas); os outros o chamam de “hebreus” (=gente desorganizada, nômades) ... Israel é o neto de Abraão, o patriarca por excelência. Ligado à antiga cultura da Mesopotâmia, a Babilônia do tempo do rei Hamurabi (por volta de 1800 aC). Abraão migra para a terra de Canaã (Israel – Palestina- Líbano) (Gn 12). Tem dois filhos: Ismael, do qual descendem os ismaelitas (os Árabes), e Isaac, o pai de Jacó, que é chamado Israel. No tempo de Jacó-Israel, o país dominante é o Egito. Para lá se dirigem, num momento de carestia, os doze filhos de Jacó – José e seus irmãos (Gn 47). É lá também que, depois da morte de José, vão conhecer a escravidão (Ex 1-5).

Israel antigo. Moisés e o Êxodo. A história do Israel antigo começa com Moisés e o Êxodo. Graças ao líder Moisés (Ex 6), e com a ajuda de Deus, os “filhos de Israel” são libertados da escravidão, atravessando o mar Vermelho (ou: dos juncos), no qual o faraó do Egito e suas tropas afundam (Ex 15). Essa libertação significa que eles já não devem obediência ao faraó, mas sim, àquele que os libertou do Egito: Deus (“Javé”, por reverência chamado “o senhor”). Moisés estabelece uma aliança (pacto) entre o senhor, como soberano e o povo do Senhor, como vassalo (Ex 19-24). Para procederem conforme essa aliança, para procederem conforme esta aliança Moisés dá ao povo a lei “Torá”. Por isso Moisés é considerado o primeiro dos profetas.

Josué e os “Juízes”. Depois da morte de Moisés, Josué introduz na terra prometida e lidera a tomada de posse dessa “herança” (Js 1), renovando a aliança com o Senhor (Js 24). As doze tribos (conforme o número dos filhos de Jacó-Israel) se estabelecem em ambas as margens do rio Jordão. São governadas por líderes chamados “Juízes” que presidem o conselho dos anciãos. Em tempo de ameaça dos povos de Canaã e de outros estranhos. Algum juiz pode reunir as diversas tribos para se defenderem. É o que faz a Juíza Débora (Jz 4-5).

Os primeiros reis, Saul, Davi e Salomão. Quando esse método de defesa se mostra fraco, sobretudo contra os fortemente armados filisteus, o povo pede ao juiz e profeta Samuel um rei, que tenha um exército permanente, mais que por isso também cobrará tributo (1Sm8). O primeiro rei (das dez tribos do norte) é Saul. Depois dele, vem Davi (1000 aC), que governa sobre o norte (Israel) e o sul (Judá). Seu sucessor Salomão constrói o templo de Jerusalém. Reina com muito luxo e muitos impostos; por isso, na sua morte, as tribos do norte separam-se do sul (1 Rs12). 

O reino dividido. O reino do Norte (Israel). Os assírios. O primeiro rei do norte é o rebelde Jeroboão I. um dos seus sucessores Amri, constrói Samaria como nova capital. Seu filho Acab lhe sucede no trono. No tempo deles atuam os profetas Elias, Eliseu, e Miquéias de Jemla. Outro sucessor, Jeroboão II, é contemporâneo dos profetas, Amós e Oséias. Em 722 aC, os assírios, novos “donos do mundo”, invadem Samaria e deportam os samaritanos para outras regiões de seu império (2Rs17).

O reino do Sul (Judá). No sul perpetua-se a linhagem de Davi. O sucessor de Salomão é Roboão. Mas o sul só ganha importância com o rei Josafá, que se une a Acab na luta contra os arameus (sírios), no século 8ºaC. Quando o norte é submetido pelos Assírios, vemos surgir os profetas no sul (Miquéias de Morasti e Isaías), no tempo do rei Acaz. Seu sucessor, Ezequias, tenta uma reforma religiosa, mas vira vassalo dos assírios. Só no meio do século depois, o rei Josias (por volta de 620 aC) realizará uma reforma significativa: acaba com os “lugares altos” no interior e concentra todo o culto e o sacerdócio no templo de Jerusalém. Essa reforma é chamada “reforma deuteronomista”, porque está relacionada com o primeiro esboço do livro do Deuteronômio (Ver 2Rs 22-23). Por esse tempo atuam os profetas Jeremias e Sofonias. Jeremias insiste junto aos sucessores de Josias (Joaquim, Jeconias e Sedecias) para que não façam pactos com os egípcios, mais aceitem o poder de fato que agora está nos babilônios.

Os Babilônicos. O Exílio babilônico. De fato, em 597 o rei da Babilônia, Nabucodonosor, faz uma expedição punitiva contra Jerusalém e leva o rei Jeconias e seu partidários para a Babilônia (1ª deportação para o Exílio Babilônico; 2Rs 24). Quando em 586 seu sucessor Sedecias comete o mesmo erro, entre os babilônios destroem o templo e levam o rei e sua gente (2ª deportação; 2Rs 25). Os profetas exilados são Ezequiel e um longínquo discípulo de Isaias (o segundo Isaias). O exílio dura até 538, quando Ciro, rei da Pérsia, depois de vencer os babilônios, se torna o novo “dono do mundo” e decreta liberdade dos exilados (edito de Ciro: 2Cr 36, 22-23).

O período Persa. Nasce o “judaísmo”. Depois da volta, os exilados restauram Jerusalém. Os profetas da restauração são: um outro longínquo discípulo de Isaías (o “terceiro Isaías”), Ageu e Zacarias, os quais apoiam a reconstrução do templo (o “segundo templo”), construído pelo sumo sacerdote Josué e pelo governador Zorobabel. Zorobabel é descendente de Davi, mas não pode ser rei, pois a autoridade real é exercida pelo rei da Pérsia: o povo não é totalmente livre. No nível da comunidade, é governado pelos sacerdotes do templo. Sua referência de unidade está em Judá (Jerusalém); por isso, este período é chamado o judaísmo. Nos séculos 5º-4ºac, o governador Neemias e o escriba-sacerdote Esdras consolidam a organização do povo em Jerusalém. A Esdras atribui-se a leitura da lei (Ne 8) e a organização das sinagogas e o estudo da lei. É chamado o pai no judaísmo.

O judaísmo no helenismo. Por volta de 330 aC, Alexandre Magno, “o grego”, conquista o império persa, inclusive Judá. Assim começa o helenismo (heleno=grego). Depois da morte de Alexandre, em 323, seu reino é dividido. Durante o 3º século aC, Judá vive sob o poder dos sucessores de Alexandre no Egito (Lágidas ou ptolomeus). Os samaritanos, que no tempo dos persas obedeciam a Jerusalém, agora separaram-se dos Judeus. Por outro lado, muitos judeus se instalam na magnífica metrópole Alexandria do Egito, onde, por volta de 250, começam a traduzir a Bíblia para o grego. No 2º século, os reis helenistas da Síria (selêucidas) abocanharam Judá. Em 167, o rei Antíoco Epífanes profana o templo. Isso provoca a resistência armada de Judas Macabeu e seus irmãos: a luta dos Macabeus. Em 164, Judas Macabeu reconquista e reconsagra o templo (1Mc4, 36-61). Os Macabeus chegaram a constituir uma dinastia, ou linhagem hereditária de reis nacionais: a dinastia dos Hasmoneus. Mas essa não é muito santa. Encampam o sumo sacerdócio, apoiados pelos sacerdotes do templo (saduceus). Isso provoca a oposição dos fariseus (leigos) e dos essênios (sacerdotes). Acirra-se também o conflito com os samaritanos: em 128, o hasmoneu João Hircano destrói o santuário dos samaritanos no monte Garizim.

Os Romanos, inícios do cristianismo. Quando as brigas internas dos Hasmoneus tornam o país ingovernável, os anciãos de Judá apelam para os romanos, os novos “donos do mundo”. Em 63 aC eles vêm para ficar, sob o comando do general Pompeu. Nomeiam o Idumeu Antípater vice-rei. Seu filho, Herodes, o Grande sucede-lhe. No fim do seu governo, no tempo do imperador Augusto, nasce Jesus de Nazaré (ca. 5 aC), que atuará e será crucificado durante o império de Tibério, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia e Herodes Antipas vice-rei na Galileia (Lc 2,1-7; 3, 1-2; 21-23).Enquanto a Judéia é administrada pelos governadores romanos e os vice-reis descendentes de Herodes (Agripa I e Agripa II, nasce e cresce a comunidade dos seguidores de Jesus, com Pedro e Tiago como principais líderes. E um fariseu convertido, Saulo de Tarso (=Paulo), provoca a grande expansão do cristianismo pelo mundo greco-romano (At 15).

Fim do Templo e do judaísmo antigo. Nascimento do judaísmo rabínico. Em 66 dC, o movimento nacionalista dos zelotes inicia uma guerra contra os romanos. Os zelotes ocupam o templo de Jerusalém. Depois de cruel assédio, o general Tito toma a cidade e destrói o templo, em 70 dC. Os escribas fariseus, que anteriormente se tinham refugiado com os livros sagrados em Jâmnia, a 50km de Jerusalém, refundam então o Judaísmo com base no estudo da lei (sem templo nem sacrifícios): o judaísmo formativo, presidido pelos rabinos, do qual deriva o judaísmo que conhecemos hoje.

Gestação nascimento e crescimento da Bíblia. Qual foi neste quadro, a história da própria bíblia?
A Bíblia foi gestada a partir do êxodo do Egito e dada à luz no tempo do exílio babilônico. A gestação no coração do povo começou com Moisés, por volta de 1200 aC. Líder do êxodo e transmissor da Lei, tornou-se o ponto de referência da memória do povo, daquilo que mais tarde ia ser chamado “a lei os profetas”. O nascimento da Bíblia situa-se logo depois do exílio babilônico, por volta de 450 aC. Naquela circunstância, os judeus, tanto exilados como remanescentes, consignaram em forma de livro sua memória de “povo eleito por Deus”.
-  A “Lei” (Gn, Ex, Lv, Nm, Dt): os textos e as tradições a respeito da libertação da escravidão do Egito, sob a liderança de Moisés, que tinha promulgado a Lei se selado a Aliança de Deus.
- Os “Profetas anteriores” (Js, Jz, 1-2Sm, 1-2Rs): a história do povo de Israel no tempo dos grandes profetas, que foram os porta-vozes do SENHOR, desde Moisés até os profetas que falaram aos últimos reis de Israel e de Judá.
Mais tarde foram acrescentados:
- Os “Profetas posteriores” ( Is, Jr, Ez e os 12 profetas maiores): os oráculos dos antigos profetas completados com os que atuaram depois do Exílio.
- Os “Escritos” (Sl, Jó, Pr, Rt, Ct, Ecl, Lm, Est, Dn, Esd-Ne, 1-2Cr.): os salmos cantados nos templos, os provérbios e pensamentos dos sábios, baseados em longa tradição, textos poéticos como o Cânticos dos Cânticos etc.
A Bíblia sagrada além dos escritos do Novo Testamento, conservam também os escritos de Israel, o Antigo testamento, ou seja, a tradição religiosa de Israel, podia se perguntar porque se manter os escritos de Israel, se Jesus fundou uma nova aliança? A resposta simples: nem sequer entenderíamos a expressão “nova aliança” se não tivéssemos a Bíblia de Israel, que nos fala da primeira Aliança e da promessa dos profetas que anunciaram a nova.
Os escritos referente ao Primeiro Testamento, no ensinam a linguagem da nova. E o Novo Testamento nos ensina em que sentido se cumpre, em Jesus em sua comunidade a esperança do Antigo Testamento, um exemplo prático é a última ceia: Jesus diz que o cálice com o vinho é o seu sangue da (nova) aliança, derramado por todos.
A primeira aliança não é revogada, mas transformada. Jesus não veio para revogar, mas para completar (Mt 5,7). Em Jesus, recebe amplidão muito maior. Não só os Israelitas de sangue. Mas todas as pessoas podem dela participar, se aderirem a Jesus, à sua palavra e à sua pratica de vida. Na visão cristã, a vocação de Israel como povo eleito (Ex 19, 5-6).

Fonte: Introdução geral - Bíblia Sagrada - edições CNBB





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